"Não ande atrás de mim, talvez eu não saiba liderar. Não ande na minha frente, talvez eu não queira seguí-lo. Ande ao meu lado, para podermos caminhar juntos."

Bruxa de Guerra

O filme Bruxa de Guerra, do canadense Kim Nguyen, que conta a história de uma menina congolesa sequestrada e obrigada a se envolver com as milícias rebeldes na República Democrática do Congo (RDC), estremeceu o Festival de Cinema de Berlim, na Alemanha, nesta sexta-feira (17).

Komona, interpretada por Rachel Mwanza, é uma menina de 12 anos que vive tranquilamente com os pais em seu povoado quando os rebeldes chegam e a capturam. Antes de levá-la, a obrigam a matar seus pais com um fuzil. A outra alternativa, afirma o comandante miliciano, será que ele os matará com um machete “e sofrerão mais”.

No acampamento dos rebeldes, Komona sofre um duro treinamento e precisa se esconder para chorar. Antes dos combates, os instrutores drogam as crianças milicianas com substâncias vegetais. Em um dos ataques aos milicianos, a única sobrevivente é Komona, que, desta forma, ganha a fama de ser “uma bruxa”.

A menina, então, se apaixonada por um jovem miliciano albino apelidado de “o mago”, em um dos únicos momentos de ternura no filme. Logo depois, ela fica grávida. Em seus pesadelos aparecem seus pais, que pedem que retorne ao seu povoado para enterrá-los.

Bruxa de Guerra aponta como essas milícias doutrinam as crianças, dando drogas para que resistam e tenham uma sensação de poder. “Não queria ser objetivo, por isso mostro os fantasmas que eles talvez possam ver, é como um véu que lhes permite viver”, disse Nguyen.

“Levei dez anos para realizar este projeto, um longo tempo para aceitar a dureza do tema e, sobretudo, para convencer os produtores a fazer este filme”, explicou. Ele ainda disse que, para escrever o roteiro e preparar seu filme, conversou com crianças-soldado no Burundi, além de trabalhadores humanitários que passam muito tempo vivendo na África.

“Uma coisa terrível é que as crianças milicianas estupradas são repudiadas quando retornam aos seus povoados. Algumas querem ficar nas milícias, pois são as únicas pessoas que elas têm”, contou. “A própria Rachel teve uma vida muito dura, cresceu nas ruas, há um paralelo entre sua vida e o personagem de Komona. Para poder subsistir, ela teve que lutar muito contra seu contexto familiar”, explicou.

Rachel Mwanza, presente em Berlim, contou sua história de menina de rua, falando que sua avó a criou com seus quatro irmãos, vendendo amendoins e amêndoas. “Quando crescemos, um dia a avó nos disse: os grandes têm que ir embora ganhar a vida. Fui viver em um abrigo, mas ali as condições de vida também eram muito hostis”, disse Rachel.

Ela também contou que tem um irmão chamado Che Guevara, e que foi escolhida “milagrosamente” por Kim Nguyen para fazer o papel de Komona. “Tudo isto é um milagre. Aprendi a ler, e estou orgulhosa. Não tenho família. Minha família são as pessoas que estão sentadas nesta mesa”, disse, referindo-se a Nguyen e aos produtores do filme.

O cineasta, canadense de família vietnamita, disse que quis fazer Bruxa de Guerra com a mentalidade de um adolescente. “Como se não conhecesse nada sobre as empresas multinacionais que exploram os recursos do Congo, esse mineral chamado coltan, por exemplo, do qual é o primeiro produtor mundial. Queria ver a história através do olhar de Rachel”, insistiu.

O Congo tem uma história muito rica. O que meu filme quer mostrar é a história da tenacidade humana na era moderna. É algo inaudito, um testemunho da era pós-moderna. Há uma grande beleza e ordem dentro do caos. É algo muito forte o instinto humano de sobrevivência em meio a esta natureza tão generosa”, disse Nguyen.

O diretor Kim Nguyen e a protagonista Rachel Mwanza posam para fotos

Foto: Pascal Le Segretain/Getty Images

Fonte: Terra, Exame,

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