"Não ande atrás de mim, talvez eu não saiba liderar. Não ande na minha frente, talvez eu não queira seguí-lo. Ande ao meu lado, para podermos caminhar juntos."

O Rebelde

O REBELDE NÃO TEM caminho algum para seguir; aqueles que seguem algum caminho não são rebeldes. O próprio espírito de rebeldia não necessita de qualquer orientação. Ele é uma luz em si mesmo.

As pessoas que não podem se rebelar pedem por orientação, querem ser seguidoras. A psicologia delas é a de que ser um seguidor as alivia de todas as responsabilidades; o guia, o mestre, o líder, os messias se tornam responsáveis por tudo. Tudo o que se requer do seguidor é apenas que tenha fé. E apenas ter fé é um outro nome para a escravidão espiritual.

O rebelde está em um estado de tremendo amor pela liberdade – liberdade total, nada menos do que isso. Daí ele não ter salvador, mensageiro de Deus, messias ou guia algum; ele simplesmente vive de acordo com sua própria natureza. Ele não segue ninguém, não imita ninguém. Certamente ele escolheu o modo de vida mais perigoso, cheio de responsabilidades, mas de uma alegria e liberdade tremendas.

Ele muitas vezes falha comete erros, mas nunca se arrepende de nada, porque aprendeu um profundo segredo da vida: ao cometer erros você se torna sábio.

Não existe outra maneira de se tornar sábio.

Ao extraviar-se, você conhece mais claramente o que está certo e o que está errado, porque tudo aquilo que lhe dá miséria, sofrimento, que torna sua vida uma escuridão sem fim, sem amanhecer. Isso significa que você se extraviou. Perceba-o – e volte novamente para o estado de ser onde você está em paz, silencioso, sereno, uma fonte de felicidade, e estará novamente no caminho certo. Não existe outro critério além desse.

Estar em estado de graça é estar certo.
Estar infeliz é estar errado.

A peregrinação do rebelde está repleta de surpresas. Ele não tem mapa, nem guia, assim, a cada momento ele está entrando em um novo espaço, em uma nova experiência – em direção à sua própria experiência, à sua própria verdade, ao seu próprio êxtase, ao seu próprio amor.

Aqueles que são seguidores nunca conhecem a beleza de experienciar coisas novas. Eles sempre têm usado conhecimento de segunda mão, e fingido serem sábios. As pessoas são certamente muito estranhas. Elas não gostam de usar sapatos de segunda mão; nem mesmo em seus pés elas porão sapatos de segunda mão. Mas quanto lixo elas estão carregando em suas cabeças… Simplesmente sapatos de segunda mão! Tudo o que elas sabem é emprestado, imitado, aprendido – não pela experiência, mas somente pela memória. O conhecimento delas consiste em memorização.

O rebelde não tem um caminho como tal.
Ele anda, e faz o seu caminho enquanto anda.

O rebelde assemelha-se a um pássaro voando no céu; que caminho ele segue?

Não existem estradas no céu, não existem pegadas de pássaros ancestrais, de pássaros notáveis, Gautama Budas. Nenhum pássaro deixa qualquer pegada no céu; portanto o céu está sempre aberto.

Você voa e faz o seu caminho.

Encontre a direção que lhe dê alegria. Mova-se para a estrela que toque sinos em seu coração. Você deve ser o fator decisivo, ninguém mais!

É por isso que falei muitas vezes sobre o caminho do meio, quando estava contradizendo as pessoas que seguiam o extremo, porque o extremo nunca pode ser completo. Ele é somente uma polaridade. Em certos contextos eu o contradisse, dizendo que estar em uma polaridade é perder a outra polaridade, é viver somente metade da vida. Você permanecerá sempre sem alcançar algo tremendamente valioso, e você nunca saberá o que é.

Naquele contexto eu falei a respeito do caminho do meio.

O homem que percorre o caminho do meio, o centro dourado – exatamente no centro – tem ambos os extremos, como duas asas alcançando os ângulos mais distantes. Ele abrange toda a polaridade em seu ser. Ele permanece no meio, mas suas asas alcançam ambos os extremos simultaneamente. Ele vive uma vida de totalidade.

Mas em outro contexto, eu falei contra o caminho do meio – porque a vida não é tão simples de se compreender. Ela é o fenômeno mais complexo do mundo.

Ela tem que ser, porque é o mais evoluído estado de consciência de toda a existência.

A sua complexidade básica é que você nunca pode falar sobre ela em sua totalidade; você somente pode falar sobre um aspecto. E quando está falando sobre um aspecto você está automaticamente negando outros aspectos, ou pelo menos ignorando-os, e a vida é uma combinação de todas as contradições.

Assim, quando você está falando sobre um aspecto, o seu aspecto contraditório – que também faz parte da vida, tanto quanto o aspecto de que você está falando – tem que ser rejeitado, negado.

Compreender-me significa compreender tudo em um certo contexto. Nunca tome minhas palavras fora do contexto; do contrário você ficará simplesmente desnorteado, confuso. Algumas vezes falei sobre o caminho do meio porque, como lhes disse, ele abrange a totalidade da vida; sua beleza é sua totalidade. Algumas vezes falei em favor dos extremos, porque o extremo tem sua própria beleza.

A vida do homem que anda no centro é sempre morna. Ele é muito cauteloso.
Ele dá cada passo muito calculadamente, com medo de que possa se mover para o extremo.
O homem que segue o caminho do meio não pode viver com paixão; não pode queimar sua tocha da vida em ambos os extremos, simultaneamente. Para isso, é preciso aprender a vida nos pontos extremos. O ponto extremo conhece intensidade, mas não conhece totalidade. Assim, quando eu estava falando a respeito de intensidade, enfatizei os extremos. Mas tudo isso foi dito em um certo contexto.

Eu também disse que não havia caminho. Com a idéia de caminho, sempre concebemos estradas, auto-estradas, que já existem – você precisa apenas andar nelas. É por isso que tenho negado que exista qualquer caminho.

No mundo da realidade, você tem que criar o caminho enquanto anda sobre ele.
Na medida em que você anda, você cria, passo a passo, um caminho; aliás, você está entrando em um território desconhecido, sem qualquer fronteira, trilha ou marco. O seu andar está criando o caminho, certamente, mas você não o pode seguir; você já andou sobre ele – é desta forma que ele foi criado.

E lembre-se, seu caminho não vai ser o caminho de ninguém mais, porque cada indivíduo é tão único que se ele seguir o caminho de outro, ele perde sua própria identidade, ele perde sua própria individualidade, e esta é a experiência mais bela da existência.

Perdendo a si mesmo, o que você vai ganhar? Você se tornará simplesmente um hipócrita. É por isso que todas as assim-chamadas pessoas religiosas são os maiores hipócritas do mundo; elas estão seguindo Jesus Cristo, ou Gautama Buda ou Mahavira.

Essas pessoas não são somente hipócritas; essas pessoas são também covardes.

Elas não estão tomando a própria vida em suas próprias mãos, não estão sendo respeitosas com a sua própria dignidade, não estão tentando descobrir: “Quem sou eu?” Estão simplesmente tentando imitar alguém. Elas podem se tornar bons atores, mas nunca podem se tornar elas mesmas. E a sua representação – por mais bonita que seja, por mais correta que seja sempre permanecerá algo superficial, simplesmente uma camada de poeira sobre você. Qualquer situação a pode perturbar, e a sua realidade surgirá.

Você não pode perder a sua singularidade.
Ela é seu verdadeiro ser.
E particularmente o rebelde… Sua própria base, sua própria espiritualidade, a totalidade de seu ser é uma afirmação de sua singularidade. Isso não significa que ele esteja afirmando o seu ego, porque ele também respeita a singularidade do outro.

As pessoas não são iguais, nem desiguais. Essas filosofias – são totalmente antipsicológicas, não são baseadas em verdades científicas. A própria idéia de igualdade é absolutamente sem fundamento. Como você pode conceber seres humanos únicos como sendo iguais?

Sim, a eles deveriam ser dadas iguais oportunidades – mas para quê?
Por uma razão muito estranha. A eles deveriam ser dadas iguais oportunidades para que cresçam e sejam eles mesmos. Em outras palavras, a eles deveriam ser dadas iguais oportunidades para serem desiguais, para serem únicos.
É a variedade de flores diferentes, de cores diferentes, de fragrâncias diferentes, torna o mundo rico.
Todas as religiões tentaram deixar o mundo mais e mais pobre.

Imaginem, hoje a população do mundo está chegando perto de – talvez ao final deste mês ela já tenha alcançado – cinco bilhões. Imaginem, cinco bilhões de pessoas como Mahavira, andando nuas por toda a terra. Elas nem ao menos encontrarão comida. Quem irá lhes dar? Onde irão mendigar? Porque para onde quer que se voltem, encontrarão um outro Mahavira, nu e faminto, pedindo por comida.

É bom que as pessoas não sejam tão estúpidas, que não tenham seguido toda essa gente até o fim. Despediram-se delas e disseram: “Nós adoraremos vocês, faremos templos para vocês, mas perdoem-nos, nós não podemos ir tão longe. Isso é somente para pessoas especiais” – somente para vinte e quatro pessoas em toda a criação, dentre as quais os historiadores pensam que vinte e uma são absolutamente falsas, nunca existiram; somente três são personagens históricas. Mas naquele tempo a idéia e o número vinte e quatro certamente se tornaram muito impressivos.

Algumas vezes os números também têm os seus dias de moda. Nos Estados Unidos, o número treze é considerado muito perigoso. Ora, ele é um pobre número como qualquer outro número; em todo o mundo, ninguém pensa nada sobre o número treze. Mas nos Estados Unidos, os hotéis simplesmente não têm o décimo terceiro andar; eles não o numeram.      

E então – depois do décimo segundo vem o décimo quarto!

O décimo terceiro simplesmente não surge, porque ninguém quer permanecer no décimo terceiro andar. As prefeituras não podem por o número treze em nenhuma casa; o número treze simplesmente está faltando em cada cidade. Depois do doze vem o catorze, porque ninguém quer ter o número treze, ele é nefasto.

Nos dias de Mahavira o número vinte e quatro se tornou um número muito espiritual. Essas coisas acontecem como moda. Você não pode dar qualquer evidência muito racional do motivo de elas acontecerem.

Os jainas declararam que têm vinte e quatro tirthankaras. O número vinte e quatro tornou-se importante porque o dia tem vinte e quatro horas, e toda a criação é concebida quase como um dia – metade será uma noite escura e metade estará cheia de luz.
Em uma criação existirão vinte e quatro tirthankaras… Exatamente como um velho relógio de parede com um sino que toca a cada hora. Esse tipo de relógio ainda existe nas torres das cidades e nas universidades. Ninguém quer esses relógios em casa, porque por toda à noite você não pode dormir. O relógio não tem consideração se você está dormindo ou acordado; ele simplesmente segue em frente mecanicamente. A mecânica da existência, de acordo com o jainismo, é que cada hora da existência – isso significa milhões e milhões de anos – será precedida por um tirthankara e sucedida por outro. É por isso que existem vinte e quatro tirthankaras. Somente três, ou no máximo quatro; o quarto é um pouco duvidoso… Mas vinte são certamente uma criação da imaginação para completar o número vinte e quatro.

Gautama Buda… Seus seguidores certamente devem ter sentido: “Nós somos muito pobres, temos somente um Buda e essas pessoas têm vinte e quatro tirthankaras, todos acordados, todos iluminados. Nossa religião é muito pobre, algo deve ser feito”. Essa é uma clara competição no mercado! Eles não podiam dizer que houve vinte e três budas antes, porque não havia a menor indicação em sua história, não havia templo dedicado a qualquer outro Buda, nem escritura descrevendo qualquer outro Buda. Isso era muito difícil para eles, assim encontraram uma nova maneira. Eles criaram uma história de que o próprio Gautama Buda nascera vinte e três vezes anteriormente. Tudo o que ele dissera anteriormente, iria dizê-lo completamente refinado, bem sistematizado, na vigésima quarta vez, quando ele estaria vindo pela última vez ao mundo – e é por isso que não existe nenhuma escritura. Mas eles conseguiram o número vinte e quatro.

Até aquele momento os hindus tinham somente dez avatares, dez encarnações de Deus. De repente eles se sentiram… Até a época de Mahavira, todas as escrituras descrevem somente dez encarnações de Deus. Mas de repente eles viram que pareciam pobres no mercado, se alguém perguntasse – só dez? Os jainas têm vinte e quatro, os budistas têm vinte e quatro; vinte e quatro é a lei universal, porque naquela época essas eram as únicas três religiões na Índia.

Os hindus estavam em grande perplexidade, o que fazer? – porque todas as suas velhas escrituras dizem que há somente dez encarnações. Eles estavam em uma situação mais difícil do que os budistas. Pelo menos os budistas não tinham escrituras, assim eles arranjaram uma bela história: nada foi registrado porque em sua última encarnação, Buda diria a versão mais refinada. Ele ensaiou vinte e três vezes, na vigésima-quarta ele virá com absoluta perfeição. Desta vez será registrado, estátuas serão feitas, templos serão feitos. Pelo menos nada era contrário à imaginação deles; eles podiam dar um jeito, no vácuo, para preencher os intervalos com budas imaginamos. Mas os hindus estavam em maior dificuldade. Todas as suas escrituras, sem exceção, estavam falando apenas de dez. Mas eles começaram a escrever novas escrituras, sem se preocuparem com a tremenda contradição criada por isto.

Todas as escrituras criadas pelos hindus depois de Buda e Mahavira têm vinte e quatro encarnações de Deus. O número tem que ser igual!
Essas religiões não têm ensinado a verdade.
Essas religiões têm apenas escravizado a humanidade.
Elas estavam tentando trazer para o seu rebanho tantas pessoas quanto podiam, porque números trazem poder. E os covardes estavam prontos para seguir o rebanho, a multidão, porque os covardes estavam se sentindo sozinhos, com medo. Este vasto universo e você está sozinho… Ninguém, nem mesmo um companheiro – completo silêncio nos céus, ninguém para lhe mostrar o caminho, ninguém para lhe dar orientação.

O rebelde é o ser espiritual real. Ele não pertence a rebanho algum, não pertence a sistema algum, não pertence à organização alguma, não pertence à filosofia alguma. Em palavras simples e conclusivas: ele não se empresta aos outros. Escava fundo dentro de si mesmo e encontra seus próprios néctares de vida, encontra suas próprias fontes de vida.

Qual a necessidade de um caminho? Você já está aqui – você existe, você é consciente. Tudo aquilo que é necessário à busca básica é dado a você pela própria existência.

Olhe para dentro de sua consciência e descubra o seu sabor.
Olhe para dentro de sua vida e descubra a sua eternidade.
Olhe para dentro de você mesmo e descobrirá que o mais puro, o mais sagrado templo é o seu próprio corpo – porque ele guarda o sagrado, o divino, tudo o que é belo, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é valioso.

Você está perguntando: “O que guia o rebelde?”
Esta é a beleza do rebelde: ele não necessita de um guia. Ele é seu próprio guia, é seu próprio caminho, é sua própria filosofia, é seu próprio futuro.

Ele é uma declaração de que “Sou tudo o que preciso e a existência é meu lar. Não sou um estranho aqui”.                 Osho

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Comentários em: "O Rebelde" (11)

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